quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma crônica da criação: derbak, espaço cênico e o imponderável

Este post resume os dois últimos encontros do nosso Laboratório. As nossas atividades em grupo foram interrompidas por uma questão prática, do campo da realidade imediata. A Universidade de Brasília, onde nos reunimos, está ocupada por estudantes. Por prevenção, o Núcleo de Dança foi fechado, e assim perdemos o local de atividades. O encontro do dia 08 de novembro foi cancelado e o impacto desta lacuna será discutido em seguida.

Primeiro quero registrar a força do derbak na Dança Oriental. Finalmente conseguimos a participação do Messer, um músico com bastante experiência em improviso, que conhece bem os ritmos árabes. Ele chegou para tocar na cena de ATS, na qual a Bianca, a Nindie e a Rose dançam tocando o snudj, como é de praxe no ATS. O derbak tem um impacto imediato e absoluto no corpo das dançarinas. Ele traz toda a atmosfera oriental com ele. É como se os ventos do deserto começassem a soprar, as caravanas chegassem, tapetes fossem estendidos e o grupo fosse transportado para um cenário do Oriente Médio. Isso ficou evidente na energia circulante a partir do momento em que o derbak começou a ser tocado.

Com vocês, o esfusiante derbak, nas mãos de Betty Vynil (Foto de arquivo Jamila Piffer)


A chegada do Messer chegou foi tão vibrante que nem fotos foram feitas. É um bom exemplo da máxima "nos divertimos tanto que nem tiramos foto". O momento falou mais alto do que o registro. Só teremos a memória para recordar este encontro, o que nos deixa livres para guardá-lo de forma mais lúdica e subjetiva.

Neste encontro, a cena do ATS ficou muito forte, carregada de vibração. A fluência corporal estava evidente. Soltamos gritos de celebração, o nosso "iliililililii" tradicional do raqs sharki, usado para exprimir alegria, chamar para a dança e levantar a energia. As formações e marcações para finalização fluiram com muita naturalidade e após o momento do trio de ATS,  as dançarinas que ficaram no coro entraram na roda e com naturalidade, guiadas pela percussão derbakiana, desfizemos o círculo, veio a ideia de uma espiral  para desfazer a roda e fechar a montagem de forma livre, cada uma adotando uma postura de finalização.

O derbak também serviu de guia para os dois outros músicos, o Diego e o Rafa, que desenvolveram linhas melódicas  e rítmicas com base no que o Messer estava fazendo. A liderança musical do derbak se impõe naturalmente em um cenário de música oriental. O derbak está para a música árabe assim como a guitarra está para o rock, é um ícone musical. Os músicos chegaram a considerar como o derbak poderia entrar no momento do Tribal-Orixá, mas não observei se  houve uma resolução neste sentido, já que esta cena já estava musicalmente bem resolvida.

Espaço cênico, subjetividades e dinâmica de ensaio


Nindie e Rose  "montadas" no ATS  

Após o encontro com o derbak,  Messer se disse disponível para tocar com a gente no dia da montagem (22 de novembro), mas não poderia estar presente em todos os encontros. Além disso, fomos surpreendidas com a notícia do fechamento do Núcleo de Dança por tempo indeterminado e assim o encontro do dia 08 foi cancelado, depois de tentarmos um espaço no IFB, sem sucesso. Como a agenda do grupo é cheia e moramos em lugares distantes um dos outros, não conseguimos chegar a um acordo sobre ensaiar no fim de semana. Este intervalo apagou um pouco da lembrança a vibração que vivemos no encontro anterior, além de deixar cair no nosso esquecimento algumas marcações e decisões de cena. É delicado  o fio que une artistas (sujeitos) em um processo criativo, e a interrupção ainda que temporária  acaba afetando a todos.

No encontro seguinte,  dia 15 de novembro, marcamos em um espaço central na cidade, para facilitar a acesso de quem vem de ônibus. Escolhemos a FUNARTE porque há uma marquise para o caso de chuva. Minha primeira impressão ao encontrar os participantes do Lab foi que o espaço aberto, ao ar livre, no centro de Brasília, trouxe uma atmosfera estimulante aos sentidos. Escolhemos a copa de uma árvore para nos abrigar e começar o Lab.

A medida que fomos avançando no processo, percebi a dispersão em nós. Dificuldades em  se concentrar, relembrar marcações. Além disso, o chão inedequado e irregular, a ausência de espelho e o deslocamento do ponto de plateia são mudanças que afetam a relação do agente cênico com a ação corporal e dramática. Alguns integrantes do Lab se mostraram mais afetados com essas circunstâncias.

O Messer não compareceu e sem o derbak, a cena do ATS perdeu fôlego e isso gerou um desconforto entre as dançarinas e músicos. O ATS é um gênero consolidado em códigos corporais e referências musicais que exigem certos procedimentos e estruturas estéticas para acontecer. Diferente do Tribal Fusion, que pode ser realizado com qualquer música, desde o rock, jazz ou outro estilo que venha à cabeça de um praticante. A ausência do derbak limitou a cena do ATS. O Diego deixou clara a dificuldade de improvisar sem a percussão árabe, porque, em suas próprias palavras, a música oriental tem linhas melódicas, rítmicas e arranjos musicais  que não fazem parte do imaginário dele. Sem referências específicas, o improviso não acontece. É interessante observar esta percepção pois sabemos que a improvisação só acontece quando há o domínio de uma linguagem, de suas estruturas básicas e referenciais estéticos. Sem a base musical as dançarinas não conseguiram avançar no ATS, uma cena já bem resolvida entre elas.

Neste momento do encontro ouvi de Bianca que as  dificuldades que estávamos enfrentando estavam criando nela um estado de espírito que ela resumiu em "brochante". A falta do derbak, o espaço cênico totalmente diferente, a cancelamento do encontro anterior criaram, para ela, um cenário desestimulante, além da notícia de que uma outra apresentação que poderia acontecer como desdobramento do Lab estava em vias de ser cancelada. Estive atenta às suas queixas, e procurei relativizar os acontecimentos para deslocar o foco de atenção da ausência para a presença, do que nos faltava para o que poderia nos estimular. Eu havia notado que Bianca era a única integrante que optou por dançar descalça na grama, e sem perceber, este desconforto tátil poderia ter contribuído para sua sensação de desconforto geral. Ela foi uma das últimas a chegar, ao contrário dos outros encontros, nos quais ela chegou pontualmente ou mesmo antes do horário, o que demonstra seu comprometimento com o projeto. Falei um pouco sobre resiliência, mas com o cuidado de não levar o diálogo para a esfera pessoal, chamando o grupo para uma roda de conversa. Falamos superficialmente sobre nossas frustações e expectativas, sobre como poderíamos lidar com as nossas limitações. 

Notei também que a Lissa estava com dificuldades de se entregar ao processo neste dia, e ela que toca violino não estava conseguindo criar uma linha de interação com os outros músicos. Estávamos vivendo uma espécie de bloqueio criativo pela primeira vez.

Ficou claro como o sentido de coletividade é fundamental para um processo criativo colaborativo. Neste encontro, como eu nenhum outro, deixamos os ânimos pessoais interferirem na dinâmica em cena. Apesar do meu papel de pesquisadora e idealizadora do Laboratório, optei por não assumir uma liderança absoluta no processo, compartilhando responsabilidades e abrindo espaço para que outras lideranças se formassem. Por um lado, essa opção abre espaço para que os integrantes se sintam protagonistas do processo, pois rompe com a dialética mestre x discípulo, professor x aluno, diretor x ator. Em contrapartida, há momentos em que a estrutura de Coletivo deixa o grupo à deriva de subjetividades do trato pessoal. Alguns impasses exigem um posicionamento impessoal e objetivo, que requer autoridade para tomadas de decisão e mais do que isso, para manter a convicção e o propósito do grupo.

Diego pós improviso: o sorriso criativo

Apesar destes percalços, o balanço que faço deste nosso encontro é de que a cena de Fusão liderada pela Shabbanna se consolidou com marcações e movimentos sincronizados. Amadurecemos a cena, até chegar ao ATS e por fim reunir as dançarinas todas em cena para finalizar a montagem.

Foi um encontro que desafiou a nossa resiliência, nossa resistência, nossas convicções. Ao mesmo tempo, vivemos momentos de muita poesia, ouvindo o Diego improvisar no  pífano, enquanto aguardavá-mos as meninas se aprontarem.