terça-feira, 15 de agosto de 2017

Caravanas Imaginárias: dançando nas fronteiras interdisciplinares


Caravanas Imaginárias aterrizando em solo inexplorado. Julho de 2017. Fotos: Isabelle Araújo
 Na segunda etapa de nossas investigações sobre o processo criativo no Tribal Fusion, demos um salto para dançar entre linguagens,  pisando em terreno inexplorado. Desta vez, a camada criativa da música foi a porta de entrada para jogar com a participação de convidados, que entraram na cena sem ter noção alguma do que iria acontecer. A experimentação com o público e o uso do jogo cênico aberto ao improviso segue a linha da dramaturgia aberta, desenvolvida pelo ator e diretor Márcio Menezes, o qual apresenta esta poética teatral cuja formação está no contexto das linguagens contemporâneas. Menezes cita  J. L. Moreno (teatro da espontaneidade e do sociodrama), Bertolt  Brechet (teatro didático), Augusto Boal ( teatro do oprimido) e demais artistas oriundos de linguagens performáticas como os principais referenciais teóricos do estilo que tem como base o “convite para que público e atores interajam no jogo cênico” que buscam posicionar o espectador como participante da cena. (MENEZES, 2010, p 49)

Foi a vontade de romper com a relação binária entre plateia passiva x elenco ativo que estimulou o aparecimento dessas poéticas, que enxergam a criatividade e espontaneidade como catalisadoras de experiências humanas estéticas e profundas. Como a participação do público é um dos pontos centrais da dramaturgia aberta, as ações dramáticas são estruturadas de forma a promover a aproximação da platéia com a cena e a “abertura de cena para sua interferência”.

Para o Centro de Estudo de Dramaturgia Aberta  (CEDA),  grupo criado por artistas de Brasília para trocar experiências sobre essa abordagem dramática,  a dramaturgia aberta “se pauta na participação e na criatividade partilhada, num sistema dinâmico, circular, adaptativo e de alta complexidade que permite desenvolver um espírito aberto a correr riscos”. Na página que eles têm no Facebook, Dramaberta, há uma citação interessante sobre essa proposta:


...o espectador oscila entre o papel do consumidor passivo e o de testemunha, associado, cliente, convidado, co-produtor, protagonista. [...] o artista leva o “observador” a participar de um dispositivo, a lhe dar vida, a completar a obra e a participar da elaboração de seu sentido. Não se trata de um artifício barato: esse tipo de obra (erroneamente chamada de “interativa”) tem sua origem na arte minimalista, cujo fundo fenomenológico especulava sobre a presença do observador como parte integrante da obra. É essa “participação” ocular que Michael Fried denuncia sob a designação genérica de “teatralidade”. (BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009. pp. 82 e 83)

Um dos caminhos para a aproximação entre público e elenco é romper com o espaço institucionalizado do teatro e ganhar a rua, onde “há naturalmente uma predisposição para participar, visto que o espaço cênico clássico pode nos remeter a um “instinto de plateia” (SOEIRO, 2003). Esse recurso será utilizado pelo Tombado, que prevê apresentações em estações de metrô e em espaços de grande circulação de pessoas.

Quem quiser conhecer o trabalho de Menezes com o Coletivo Tombado pode ler o blog no qual registrei, junto com colegas do Mestrado, nossas observações sobre o processo criativo deles.

Eu acho que eu vi um derbakista...
A montagem chamada de Caravanas Imaginárias é a primeira de uma nova dimensão que o ProCria assumiu, em flerte aberto com a dramaturgia na dança.  Tivemos a participação do percussionista Raphael Strauss e a dançarina Josy Braga. O uso de uma narrativa para conduzir as ações coreográficas  transformou a nossa jornada criativa. Mais uma vez,   testávamos os limites da hibridação.
Participação especial: o vento de fim de inverno
Rose, Nindie e Bianca trouxeram para a cena o American Tribal Style (ATS) , com seus gestos e passos codificados para permitir a construção coreográfica coletiva, criada na troca de liderança entre as dançarinas, que se intercalam na condução dos movimentos do grupo. 


Preto e branco: o figurino revela idiossincrasias estéticas

O grupo se propos a registrar em vídeo nossas experimentações em música, dança e performance - teatro? O video Caravanas Imaginárias mostra a nossa passagem para novos campos, novas paragens.  Nossa corporalidade se abrindo para a expressividade diante de estímulos interdisciplinares.  O primeiro registro em vídeo do nosso Laboratório está disponível aqui. 


Agradecimentos mais do que especiais à fotógrafa e cineasta Isabelle Araújo, que estava gravidíssima do agora recém-nascido Jorge, e emprestou seus olhos sensíveis para o registro.  À Jozy Braga, a Nyx do Tribal Fusion, também estava com a gente, se jogando sem saber onde iria chegar, segurando o ritmo com os snudjs. 


REFERÊNCIAS

MENEZES, Márcio Nascimento. Dramaturgia aberta: dispositivo, abertura e participação. Dissertação ( Mestrado em Teatro, Drama  e Educação) Universidade de Brasília. Brasília 2010.  (Orientador Prof. Dr. Paulo Bareicha)



terça-feira, 30 de maio de 2017

A hibridação como vórtice criativo

 A segunda montagem da nossa intervenção artística foi feita no ICC- Sul, conhecido como UDFinho, onde circula a comunidade acadêmica da UnB - estudantes, professores, pesquisadores, servidores públicos e demais frequentadores do Campus da Asa Norte.


Fotos: Heloise Cullen
Vejo pétalas de uma flor de Lótus


Desta vez, encontramos uma sintonia cênica no grupo  que diluiu ansiedades e dúvidas sobre como a nossa performance iria acontecer. Senti que estávamos menos preocupados com a tecnicidade da nossa apresentação. A entrega ao fluxo da montagem  era agora uma possibilidade inventiva ao invés de uma ameaça - as lacunas entre as marcações coreográficas tornaram-se respiros expressivos e o improviso um canal de manifestação de nossas entranhas. 


Corporeidade compartilhada




Ocupamos o espaço com mais organicidade


É natural que a cada apresentação de uma mesma montagem a ansiedade diminua e dê lugar à confiança, especialmente quando as ações anteriores "deram certo". No nosso caso, minha percepção me conduz a pensar que esse aumento de sintonia e fluidez entre uma cena e outra se baseia em uma compreensão coletiva e corporal  adquirida com a prática conjunta, na experiência do grupo naquela dinâmica.


A hibridação como vórtice criativo


Nossa montagem nasceu de um encontro de dançarinas e musicistas com diferentes bagagens. Aos poucos, fomos colocando na Roda o atributo, o elemento cênico ou a poética que queríamos compartilhar, fazer girar em uma sinergia criativa. 

Sem abrir mão do olhar pessoal, da subjetividade, do modo único que cada um experimenta a dança de matriz pélvica buscamos interseções e pontos de fuga para criar o nosso mosaico Tribal. Já não precisamos delimitar espaços entre o Tribal Brasil, o Dark Fusion, o Tribal Fusion, a dança dos Orixás, a prosa de Guimarães Rosa - todos estes elementos estavam presentes e se misturavam para dar corpo a um movimento coletivo, como canais de manifestação de uma melodia comum, criada em conjunto.

Tendo por base a matriz pélvica, os movimentos básicos característicos da Dança Oriental, a Raqs Sharq, ou Oriental Dance, nosso processo criativo foi guiado pela hibridação entre os diferentes gêneros desta modalidade de dança, além da mescla com elementos da dança dos orixás, com a música orgânica e autoral, além de recursos cênicos - declamações e partituras gestuais.