Fotos: Heloise Cullen
Vejo pétalas de uma flor de Lótus
Desta vez, encontramos uma sintonia cênica no grupo que diluiu ansiedades e dúvidas sobre como a nossa performance iria acontecer. Senti que estávamos menos preocupados com a tecnicidade da nossa apresentação. A entrega ao fluxo da montagem era agora uma possibilidade inventiva ao invés de uma ameaça - as lacunas entre as marcações coreográficas tornaram-se respiros expressivos e o improviso um canal de manifestação de nossas entranhas.
É natural que a cada apresentação de uma mesma montagem a ansiedade diminua e dê lugar à confiança, especialmente quando as ações anteriores "deram certo". No nosso caso, minha percepção me conduz a pensar que esse aumento de sintonia e fluidez entre uma cena e outra se baseia em uma compreensão coletiva e corporal adquirida com a prática conjunta, na experiência do grupo naquela dinâmica.
A hibridação como vórtice criativo
Nossa montagem nasceu de um encontro de dançarinas e musicistas com diferentes bagagens. Aos poucos, fomos colocando na Roda o atributo, o elemento cênico ou a poética que queríamos compartilhar, fazer girar em uma sinergia criativa.
Sem abrir mão do olhar pessoal, da subjetividade, do modo único que cada um experimenta a dança de matriz pélvica buscamos interseções e pontos de fuga para criar o nosso mosaico Tribal. Já não precisamos delimitar espaços entre o Tribal Brasil, o Dark Fusion, o Tribal Fusion, a dança dos Orixás, a prosa de Guimarães Rosa - todos estes elementos estavam presentes e se misturavam para dar corpo a um movimento coletivo, como canais de manifestação de uma melodia comum, criada em conjunto.
Tendo por base a matriz pélvica, os movimentos básicos característicos da Dança Oriental, a Raqs Sharq, ou Oriental Dance, nosso processo criativo foi guiado pela hibridação entre os diferentes gêneros desta modalidade de dança, além da mescla com elementos da dança dos orixás, com a música orgânica e autoral, além de recursos cênicos - declamações e partituras gestuais.



