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| Caravanas Imaginárias aterrizando em solo inexplorado. Julho de 2017. Fotos: Isabelle Araújo |
Na segunda etapa de nossas investigações sobre o processo criativo no Tribal Fusion, demos um salto para dançar entre linguagens, pisando em terreno inexplorado. Desta vez, a camada criativa da música foi a porta de entrada para jogar com a participação de convidados, que entraram na cena sem ter noção alguma do que iria acontecer. A experimentação com o público e o uso do jogo cênico aberto ao improviso segue a linha da dramaturgia aberta, desenvolvida pelo ator e diretor Márcio Menezes, o qual apresenta esta poética teatral cuja formação está no contexto das linguagens contemporâneas. Menezes cita J. L. Moreno (teatro da espontaneidade e do sociodrama), Bertolt Brechet (teatro didático), Augusto Boal ( teatro do oprimido) e demais artistas oriundos de linguagens performáticas como os principais referenciais teóricos do estilo que tem como base o “convite para que público e atores interajam no jogo cênico” que buscam posicionar o espectador como participante da cena. (MENEZES, 2010, p 49)
...o espectador oscila entre o papel do consumidor passivo e o de testemunha, associado, cliente, convidado, co-produtor, protagonista. [...] o artista leva o “observador” a participar de um dispositivo, a lhe dar vida, a completar a obra e a participar da elaboração de seu sentido. Não se trata de um artifício barato: esse tipo de obra (erroneamente chamada de “interativa”) tem sua origem na arte minimalista, cujo fundo fenomenológico especulava sobre a presença do observador como parte integrante da obra. É essa “participação” ocular que Michael Fried denuncia sob a designação genérica de “teatralidade”. (BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009. pp. 82 e 83)
Foi a vontade de romper com a relação binária entre plateia passiva x elenco ativo que estimulou o aparecimento dessas poéticas, que enxergam a criatividade e espontaneidade como catalisadoras de experiências humanas estéticas e profundas. Como a participação do público é um dos pontos centrais da dramaturgia aberta, as ações dramáticas são estruturadas de forma a promover a aproximação da platéia com a cena e a “abertura de cena para sua interferência”.
Para o Centro de Estudo de Dramaturgia Aberta (CEDA), grupo criado por artistas de Brasília para trocar experiências sobre essa abordagem dramática, a dramaturgia aberta “se pauta na participação e na criatividade partilhada, num sistema dinâmico, circular, adaptativo e de alta complexidade que permite desenvolver um espírito aberto a correr riscos”. Na página que eles têm no Facebook, Dramaberta, há uma citação interessante sobre essa proposta:
...o espectador oscila entre o papel do consumidor passivo e o de testemunha, associado, cliente, convidado, co-produtor, protagonista. [...] o artista leva o “observador” a participar de um dispositivo, a lhe dar vida, a completar a obra e a participar da elaboração de seu sentido. Não se trata de um artifício barato: esse tipo de obra (erroneamente chamada de “interativa”) tem sua origem na arte minimalista, cujo fundo fenomenológico especulava sobre a presença do observador como parte integrante da obra. É essa “participação” ocular que Michael Fried denuncia sob a designação genérica de “teatralidade”. (BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009. pp. 82 e 83)
Um dos caminhos para a aproximação entre público e elenco é romper com o espaço institucionalizado do teatro e ganhar a rua, onde “há naturalmente uma predisposição para participar, visto que o espaço cênico clássico pode nos remeter a um “instinto de plateia” (SOEIRO, 2003). Esse recurso será utilizado pelo Tombado, que prevê apresentações em estações de metrô e em espaços de grande circulação de pessoas.
Quem quiser conhecer o trabalho de Menezes com o Coletivo Tombado pode ler o blog no qual registrei, junto com colegas do Mestrado, nossas observações sobre o processo criativo deles.
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| Eu acho que eu vi um derbakista... |
A montagem chamada de Caravanas Imaginárias é a primeira de uma nova dimensão que o ProCria assumiu, em flerte aberto com a dramaturgia na dança. Tivemos a participação do percussionista Raphael Strauss e a dançarina Josy Braga. O uso de uma narrativa para conduzir as ações coreográficas transformou a nossa jornada criativa. Mais uma vez, testávamos os limites da hibridação.
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| Participação especial: o vento de fim de inverno |
Rose, Nindie e Bianca trouxeram para a cena o American Tribal Style (ATS) , com seus gestos e passos codificados para permitir a construção coreográfica coletiva, criada na troca de liderança entre as dançarinas, que se intercalam na condução dos movimentos do grupo.
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| Preto e branco: o figurino revela idiossincrasias estéticas |
Agradecimentos mais do que especiais à fotógrafa e cineasta Isabelle Araújo, que estava gravidíssima do agora recém-nascido Jorge, e emprestou seus olhos sensíveis para o registro. À Jozy Braga, a Nyx do Tribal Fusion, também estava com a gente, se jogando sem saber onde iria chegar, segurando o ritmo com os snudjs.
MENEZES, Márcio Nascimento. Dramaturgia aberta: dispositivo, abertura e participação. Dissertação ( Mestrado em Teatro, Drama e Educação) Universidade de Brasília. Brasília 2010. (Orientador Prof. Dr. Paulo Bareicha)













