terça-feira, 15 de agosto de 2017

Caravanas Imaginárias: dançando nas fronteiras interdisciplinares


Caravanas Imaginárias aterrizando em solo inexplorado. Julho de 2017. Fotos: Isabelle Araújo
 Na segunda etapa de nossas investigações sobre o processo criativo no Tribal Fusion, demos um salto para dançar entre linguagens,  pisando em terreno inexplorado. Desta vez, a camada criativa da música foi a porta de entrada para jogar com a participação de convidados, que entraram na cena sem ter noção alguma do que iria acontecer. A experimentação com o público e o uso do jogo cênico aberto ao improviso segue a linha da dramaturgia aberta, desenvolvida pelo ator e diretor Márcio Menezes, o qual apresenta esta poética teatral cuja formação está no contexto das linguagens contemporâneas. Menezes cita  J. L. Moreno (teatro da espontaneidade e do sociodrama), Bertolt  Brechet (teatro didático), Augusto Boal ( teatro do oprimido) e demais artistas oriundos de linguagens performáticas como os principais referenciais teóricos do estilo que tem como base o “convite para que público e atores interajam no jogo cênico” que buscam posicionar o espectador como participante da cena. (MENEZES, 2010, p 49)

Foi a vontade de romper com a relação binária entre plateia passiva x elenco ativo que estimulou o aparecimento dessas poéticas, que enxergam a criatividade e espontaneidade como catalisadoras de experiências humanas estéticas e profundas. Como a participação do público é um dos pontos centrais da dramaturgia aberta, as ações dramáticas são estruturadas de forma a promover a aproximação da platéia com a cena e a “abertura de cena para sua interferência”.

Para o Centro de Estudo de Dramaturgia Aberta  (CEDA),  grupo criado por artistas de Brasília para trocar experiências sobre essa abordagem dramática,  a dramaturgia aberta “se pauta na participação e na criatividade partilhada, num sistema dinâmico, circular, adaptativo e de alta complexidade que permite desenvolver um espírito aberto a correr riscos”. Na página que eles têm no Facebook, Dramaberta, há uma citação interessante sobre essa proposta:


...o espectador oscila entre o papel do consumidor passivo e o de testemunha, associado, cliente, convidado, co-produtor, protagonista. [...] o artista leva o “observador” a participar de um dispositivo, a lhe dar vida, a completar a obra e a participar da elaboração de seu sentido. Não se trata de um artifício barato: esse tipo de obra (erroneamente chamada de “interativa”) tem sua origem na arte minimalista, cujo fundo fenomenológico especulava sobre a presença do observador como parte integrante da obra. É essa “participação” ocular que Michael Fried denuncia sob a designação genérica de “teatralidade”. (BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Martins, 2009. pp. 82 e 83)

Um dos caminhos para a aproximação entre público e elenco é romper com o espaço institucionalizado do teatro e ganhar a rua, onde “há naturalmente uma predisposição para participar, visto que o espaço cênico clássico pode nos remeter a um “instinto de plateia” (SOEIRO, 2003). Esse recurso será utilizado pelo Tombado, que prevê apresentações em estações de metrô e em espaços de grande circulação de pessoas.

Quem quiser conhecer o trabalho de Menezes com o Coletivo Tombado pode ler o blog no qual registrei, junto com colegas do Mestrado, nossas observações sobre o processo criativo deles.

Eu acho que eu vi um derbakista...
A montagem chamada de Caravanas Imaginárias é a primeira de uma nova dimensão que o ProCria assumiu, em flerte aberto com a dramaturgia na dança.  Tivemos a participação do percussionista Raphael Strauss e a dançarina Josy Braga. O uso de uma narrativa para conduzir as ações coreográficas  transformou a nossa jornada criativa. Mais uma vez,   testávamos os limites da hibridação.
Participação especial: o vento de fim de inverno
Rose, Nindie e Bianca trouxeram para a cena o American Tribal Style (ATS) , com seus gestos e passos codificados para permitir a construção coreográfica coletiva, criada na troca de liderança entre as dançarinas, que se intercalam na condução dos movimentos do grupo. 


Preto e branco: o figurino revela idiossincrasias estéticas

O grupo se propos a registrar em vídeo nossas experimentações em música, dança e performance - teatro? O video Caravanas Imaginárias mostra a nossa passagem para novos campos, novas paragens.  Nossa corporalidade se abrindo para a expressividade diante de estímulos interdisciplinares.  O primeiro registro em vídeo do nosso Laboratório está disponível aqui. 


Agradecimentos mais do que especiais à fotógrafa e cineasta Isabelle Araújo, que estava gravidíssima do agora recém-nascido Jorge, e emprestou seus olhos sensíveis para o registro.  À Jozy Braga, a Nyx do Tribal Fusion, também estava com a gente, se jogando sem saber onde iria chegar, segurando o ritmo com os snudjs. 


REFERÊNCIAS

MENEZES, Márcio Nascimento. Dramaturgia aberta: dispositivo, abertura e participação. Dissertação ( Mestrado em Teatro, Drama  e Educação) Universidade de Brasília. Brasília 2010.  (Orientador Prof. Dr. Paulo Bareicha)



terça-feira, 30 de maio de 2017

A hibridação como vórtice criativo

 A segunda montagem da nossa intervenção artística foi feita no ICC- Sul, conhecido como UDFinho, onde circula a comunidade acadêmica da UnB - estudantes, professores, pesquisadores, servidores públicos e demais frequentadores do Campus da Asa Norte.


Fotos: Heloise Cullen
Vejo pétalas de uma flor de Lótus


Desta vez, encontramos uma sintonia cênica no grupo  que diluiu ansiedades e dúvidas sobre como a nossa performance iria acontecer. Senti que estávamos menos preocupados com a tecnicidade da nossa apresentação. A entrega ao fluxo da montagem  era agora uma possibilidade inventiva ao invés de uma ameaça - as lacunas entre as marcações coreográficas tornaram-se respiros expressivos e o improviso um canal de manifestação de nossas entranhas. 


Corporeidade compartilhada




Ocupamos o espaço com mais organicidade


É natural que a cada apresentação de uma mesma montagem a ansiedade diminua e dê lugar à confiança, especialmente quando as ações anteriores "deram certo". No nosso caso, minha percepção me conduz a pensar que esse aumento de sintonia e fluidez entre uma cena e outra se baseia em uma compreensão coletiva e corporal  adquirida com a prática conjunta, na experiência do grupo naquela dinâmica.


A hibridação como vórtice criativo


Nossa montagem nasceu de um encontro de dançarinas e musicistas com diferentes bagagens. Aos poucos, fomos colocando na Roda o atributo, o elemento cênico ou a poética que queríamos compartilhar, fazer girar em uma sinergia criativa. 

Sem abrir mão do olhar pessoal, da subjetividade, do modo único que cada um experimenta a dança de matriz pélvica buscamos interseções e pontos de fuga para criar o nosso mosaico Tribal. Já não precisamos delimitar espaços entre o Tribal Brasil, o Dark Fusion, o Tribal Fusion, a dança dos Orixás, a prosa de Guimarães Rosa - todos estes elementos estavam presentes e se misturavam para dar corpo a um movimento coletivo, como canais de manifestação de uma melodia comum, criada em conjunto.

Tendo por base a matriz pélvica, os movimentos básicos característicos da Dança Oriental, a Raqs Sharq, ou Oriental Dance, nosso processo criativo foi guiado pela hibridação entre os diferentes gêneros desta modalidade de dança, além da mescla com elementos da dança dos orixás, com a música orgânica e autoral, além de recursos cênicos - declamações e partituras gestuais.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Intervenção artística na UnB

A primeira etapa do nosso Laboratório foi encerrada com uma montagem em espaço público, em dois lugares da UnB: Departamento de Artes Cênicas e ICC Sul.

Fotos: Heloise Cullen

A primeira intervenção foi no Espaço Piloto, com estudantes da Ocupa Cênicas ao nosso redor. Nossa conexão cênica proporcionou uma experiência intensa e energizante. As marcações cênicas funcionaram bem, assim como a música. Os improvisos fluíram para costurar as cenas e o resultado foi muito além do que eu esperava.

"Eu coloco a minha mão na sua para que juntas possamos fazer  o que eu não poderia fazer sozinha", frase da Shabbanna pra iniciar a apresentação


Improvisos e marcações confluíram na coletividade construída durante o Laboratório.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma crônica da criação: derbak, espaço cênico e o imponderável

Este post resume os dois últimos encontros do nosso Laboratório. As nossas atividades em grupo foram interrompidas por uma questão prática, do campo da realidade imediata. A Universidade de Brasília, onde nos reunimos, está ocupada por estudantes. Por prevenção, o Núcleo de Dança foi fechado, e assim perdemos o local de atividades. O encontro do dia 08 de novembro foi cancelado e o impacto desta lacuna será discutido em seguida.

Primeiro quero registrar a força do derbak na Dança Oriental. Finalmente conseguimos a participação do Messer, um músico com bastante experiência em improviso, que conhece bem os ritmos árabes. Ele chegou para tocar na cena de ATS, na qual a Bianca, a Nindie e a Rose dançam tocando o snudj, como é de praxe no ATS. O derbak tem um impacto imediato e absoluto no corpo das dançarinas. Ele traz toda a atmosfera oriental com ele. É como se os ventos do deserto começassem a soprar, as caravanas chegassem, tapetes fossem estendidos e o grupo fosse transportado para um cenário do Oriente Médio. Isso ficou evidente na energia circulante a partir do momento em que o derbak começou a ser tocado.

Com vocês, o esfusiante derbak, nas mãos de Betty Vynil (Foto de arquivo Jamila Piffer)


A chegada do Messer chegou foi tão vibrante que nem fotos foram feitas. É um bom exemplo da máxima "nos divertimos tanto que nem tiramos foto". O momento falou mais alto do que o registro. Só teremos a memória para recordar este encontro, o que nos deixa livres para guardá-lo de forma mais lúdica e subjetiva.

Neste encontro, a cena do ATS ficou muito forte, carregada de vibração. A fluência corporal estava evidente. Soltamos gritos de celebração, o nosso "iliililililii" tradicional do raqs sharki, usado para exprimir alegria, chamar para a dança e levantar a energia. As formações e marcações para finalização fluiram com muita naturalidade e após o momento do trio de ATS,  as dançarinas que ficaram no coro entraram na roda e com naturalidade, guiadas pela percussão derbakiana, desfizemos o círculo, veio a ideia de uma espiral  para desfazer a roda e fechar a montagem de forma livre, cada uma adotando uma postura de finalização.

O derbak também serviu de guia para os dois outros músicos, o Diego e o Rafa, que desenvolveram linhas melódicas  e rítmicas com base no que o Messer estava fazendo. A liderança musical do derbak se impõe naturalmente em um cenário de música oriental. O derbak está para a música árabe assim como a guitarra está para o rock, é um ícone musical. Os músicos chegaram a considerar como o derbak poderia entrar no momento do Tribal-Orixá, mas não observei se  houve uma resolução neste sentido, já que esta cena já estava musicalmente bem resolvida.

Espaço cênico, subjetividades e dinâmica de ensaio


Nindie e Rose  "montadas" no ATS  

Após o encontro com o derbak,  Messer se disse disponível para tocar com a gente no dia da montagem (22 de novembro), mas não poderia estar presente em todos os encontros. Além disso, fomos surpreendidas com a notícia do fechamento do Núcleo de Dança por tempo indeterminado e assim o encontro do dia 08 foi cancelado, depois de tentarmos um espaço no IFB, sem sucesso. Como a agenda do grupo é cheia e moramos em lugares distantes um dos outros, não conseguimos chegar a um acordo sobre ensaiar no fim de semana. Este intervalo apagou um pouco da lembrança a vibração que vivemos no encontro anterior, além de deixar cair no nosso esquecimento algumas marcações e decisões de cena. É delicado  o fio que une artistas (sujeitos) em um processo criativo, e a interrupção ainda que temporária  acaba afetando a todos.

No encontro seguinte,  dia 15 de novembro, marcamos em um espaço central na cidade, para facilitar a acesso de quem vem de ônibus. Escolhemos a FUNARTE porque há uma marquise para o caso de chuva. Minha primeira impressão ao encontrar os participantes do Lab foi que o espaço aberto, ao ar livre, no centro de Brasília, trouxe uma atmosfera estimulante aos sentidos. Escolhemos a copa de uma árvore para nos abrigar e começar o Lab.

A medida que fomos avançando no processo, percebi a dispersão em nós. Dificuldades em  se concentrar, relembrar marcações. Além disso, o chão inedequado e irregular, a ausência de espelho e o deslocamento do ponto de plateia são mudanças que afetam a relação do agente cênico com a ação corporal e dramática. Alguns integrantes do Lab se mostraram mais afetados com essas circunstâncias.

O Messer não compareceu e sem o derbak, a cena do ATS perdeu fôlego e isso gerou um desconforto entre as dançarinas e músicos. O ATS é um gênero consolidado em códigos corporais e referências musicais que exigem certos procedimentos e estruturas estéticas para acontecer. Diferente do Tribal Fusion, que pode ser realizado com qualquer música, desde o rock, jazz ou outro estilo que venha à cabeça de um praticante. A ausência do derbak limitou a cena do ATS. O Diego deixou clara a dificuldade de improvisar sem a percussão árabe, porque, em suas próprias palavras, a música oriental tem linhas melódicas, rítmicas e arranjos musicais  que não fazem parte do imaginário dele. Sem referências específicas, o improviso não acontece. É interessante observar esta percepção pois sabemos que a improvisação só acontece quando há o domínio de uma linguagem, de suas estruturas básicas e referenciais estéticos. Sem a base musical as dançarinas não conseguiram avançar no ATS, uma cena já bem resolvida entre elas.

Neste momento do encontro ouvi de Bianca que as  dificuldades que estávamos enfrentando estavam criando nela um estado de espírito que ela resumiu em "brochante". A falta do derbak, o espaço cênico totalmente diferente, a cancelamento do encontro anterior criaram, para ela, um cenário desestimulante, além da notícia de que uma outra apresentação que poderia acontecer como desdobramento do Lab estava em vias de ser cancelada. Estive atenta às suas queixas, e procurei relativizar os acontecimentos para deslocar o foco de atenção da ausência para a presença, do que nos faltava para o que poderia nos estimular. Eu havia notado que Bianca era a única integrante que optou por dançar descalça na grama, e sem perceber, este desconforto tátil poderia ter contribuído para sua sensação de desconforto geral. Ela foi uma das últimas a chegar, ao contrário dos outros encontros, nos quais ela chegou pontualmente ou mesmo antes do horário, o que demonstra seu comprometimento com o projeto. Falei um pouco sobre resiliência, mas com o cuidado de não levar o diálogo para a esfera pessoal, chamando o grupo para uma roda de conversa. Falamos superficialmente sobre nossas frustações e expectativas, sobre como poderíamos lidar com as nossas limitações. 

Notei também que a Lissa estava com dificuldades de se entregar ao processo neste dia, e ela que toca violino não estava conseguindo criar uma linha de interação com os outros músicos. Estávamos vivendo uma espécie de bloqueio criativo pela primeira vez.

Ficou claro como o sentido de coletividade é fundamental para um processo criativo colaborativo. Neste encontro, como eu nenhum outro, deixamos os ânimos pessoais interferirem na dinâmica em cena. Apesar do meu papel de pesquisadora e idealizadora do Laboratório, optei por não assumir uma liderança absoluta no processo, compartilhando responsabilidades e abrindo espaço para que outras lideranças se formassem. Por um lado, essa opção abre espaço para que os integrantes se sintam protagonistas do processo, pois rompe com a dialética mestre x discípulo, professor x aluno, diretor x ator. Em contrapartida, há momentos em que a estrutura de Coletivo deixa o grupo à deriva de subjetividades do trato pessoal. Alguns impasses exigem um posicionamento impessoal e objetivo, que requer autoridade para tomadas de decisão e mais do que isso, para manter a convicção e o propósito do grupo.

Diego pós improviso: o sorriso criativo

Apesar destes percalços, o balanço que faço deste nosso encontro é de que a cena de Fusão liderada pela Shabbanna se consolidou com marcações e movimentos sincronizados. Amadurecemos a cena, até chegar ao ATS e por fim reunir as dançarinas todas em cena para finalizar a montagem.

Foi um encontro que desafiou a nossa resiliência, nossa resistência, nossas convicções. Ao mesmo tempo, vivemos momentos de muita poesia, ouvindo o Diego improvisar no  pífano, enquanto aguardavá-mos as meninas se aprontarem.




quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sobre a dramaturgia da dança: processos, caminhos e chegadas

Participar e ao mesmo tempo observar um processo criativo em dança desafia a percepção. No desenrolar deste Laboratório, às vezes sou conduzida pelas sensações da prática corporal, do devaneio da criação, e me perco do olhar de pesquisa. Outras vezes, quando preciso mergulhar na cena, algo me chama a atenção para uma perspectiva reflexiva, analítica, e lá estou eu, cabeça sem corpo, racionalizando o que deveria sentir.

No último encontro foram tantas experiências que me senti assim: conduzida quando poderia conduzir, e à deriva quando poderia seguir no fluxo da experiência. Demorei dois dias para processar tudo, e por enquanto o que tenho são essas anotações em tópicos. Minha grande pergunta, ao olhar para o que construímos até aqui: como a dramaturgia da dança se manifesta?

A meta de fechar uma montagem até o dia 08 de novembro teve um impacto contraditório em nosso processo criativo. Por um lado, a restrição temporal nos traz foco, direcionamento para encaminhar as experimentações a um resultado, à finalização das cenas. Por outro lado, a necessidade de finalizar a montagem acelera nossos processos, nossas trocas e vivências. O tempo atropela o processo criativo, que tem seus próprios e, por vezes, indecifráveis caminhos. A construção da coletividade do grupo requer fluidez e jogo, mas temos que escolher entre deixar fluir a criatividade, praticar o jogo, ou organizar as cenas, as marcações corporais e o diálogo com a música. 

Construção coletiva da cena: mundos que se cruzam, imaginários em diálogo. (Foto: Mallika)

  • Filmamos e fotografamos o encontro. Este material nos mostrou facetas da montagem que ainda não tínhamos observado. Suas formas, formações corporais. Percebi ritmos novos e alguns descompassos entre o meu corpo e a música. Vejo com naturalidade a nossa dificuldade de orientar os movimentos corporais a partir de vocalizes nossos e de música orgânica, autoral. Optamos por sair da área de conforto ao não usar músicas "de dança oriental". A ausência do derbak desorienta as dançarinas em um grau que varia de acordo com a bagagem de cada uma em explorar a dança por outros caminhos que não os da música.
Nosso campo musical: escaleta, cajon e bongó. (Foto: Mallika)

  • Senti que a música como camada criativa perdeu fôlego neste encontro. Os musicistas ainda estão isolados da cena, e em apenas um momento da montagem conseguimos aproximar  o Diego do palco. A riqueza de dançar com a música tocada ao vivo poderia estar sendo explorada em uma outra dimensão, com mais proximidade. Suponho que para os músicos também está sendo um desafio grande compor à medida que construímos as cenas. Nos primeiros encontros tivemos tempo de discutir o campo imaginal que trazemos para os movimentos corporais, as escolhas dos nossos personagens e como eles se comportam diante da dinâmica de cada movimento. Já neste final, a corporeidade se impôs sobre a musicalidade pois as decisões rítmicas e melódicas partem da cena para os músicos, e não ao contrário.
Cleópatra, nossa mascote, assistiu a tudo. (Foto: Mallika)


  • Ainda não tenho respostas sobre o que nos conduz com mais força na escolha dos movimentos corporais, seja nas marcações ou nos improvisos. Será a música? Os movimentos da matriz pélvica que chegam com mais naturalidade, de acordo com a melodia ou ritmo trazido pelos músicos? Até que ponto as personagens que cada uma escolheu realmente se manifestam no processo criativo? Ou haveria uma persona , um estilo que cada uma constitui no espaço da dança, que determina nossos processos de criação coreográfica?
A cena Tribal -Orixá: a força da matriz afro. (Foto: Mallika)

  •  A cena Tribal Brasil, que eu gosto de chamar de Tribal -Orixá, ganhou força e complexidade. Marcações mais bem definidas e movimentos sincronizados. Saímos do improviso e jogo cênico para a formação mais tradicional, próxima ao ATS e ao ITS. Demoramos para desconstruir esta cena, para que o próximo momento viesse. Uma cena forte, que mobiliza nossas sensações, parece nos envolver de tal forma que sair dela é um processo que querer um certo tempo.
Transição: saindo do Tribal Axé para o Dark Fusion Expressionista

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Processos de finalização da montagem



No ponto em que chegamos no Laboratório é possível notar  o fortalecimento do grupo na criação de sua coletividade. As rodas de conversa se tornaram momentos de tomada de decisão e  em muitas vezes as atividades desenvolvidas têm a liderança partilhada. Além disso os jogos corporais estão mais fluidos, o que permite a montagem coreográfica coletiva, com a definição de marcações corporais que se intercalam aos momentos de improviso. 

A imagem da roda é muito evocada durante os encontros, desde os exercícios corporais até os momentos de conversa. No roteiro da nossa montagem, nosso primeiro encontro em cena acontece em uma roda, na qual giramos e cantamos, antes de parar em semi-círculo. A roda é o elemento central das Danças Circulares Sagradas, sistematizadas no Ocidente pelo coreógrafo alemão/polonês Bernhard Wosien.

Conseguimos chegar a dez cenas, e no próximo encontro a montagem será fechada, para entrarmos no processo de sintonia fina de cada cena. As dançarinas ressaltaram que o derbak é um instrumento fundamental para que elas possam improvisar e por isso sentem falta dele, que funciona como guia dos movimentos dos quadris. Por enquanto, estamos usando pife, pandeiro e  escaleta, acrescido hoje de bongó e o violino. Acrescentamos também uma formação coreográfica de Tribal Brasil.

A ideia de trazer objetos de cena ou instrumentos de dança como leque, espada e punhal perdeu força. Algumas dançarinas disseram que não tinham conseguido inseri-los na montagem por não encaixarem na temática do sertão, proposta como cenário para o desenrolar nas cenas. Chegamos a considerar que um leque de penas poderia evocar um pássaro, que nos levou à ideia de carcará ou ave de rapina. Meu processo criativo neste Laboratório inclui a criação de um personagem para a minha dança ligado à imagem de um pássaro para a qual devo criar um figurino. 

Aliás, o tema figurino foi debatido entre nós. A Bianca lembrou que os figurinos de ATS são bem pesados, e o turbante na cabeça limitaria os movimentos mais soltos do Fusion. Concordamos em fechar o figurino na semana que vem, levando em conta a mobilidade e total liberdade de movimento.

A Nindie sugeriu colocar um momento de Gipsy Fusion, e o violino e escaleta nos deram uma cena que chamamos de Fusion, mas que ganha um traço de música eletrônica com o efeito vocal que o Diego faz na escaleta, lembrando os sons de mixagem de uma pick-up de DJ. Como usaremos estes elementos finais é algo que vamos definir no próximo encontro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Jogos corporais para a cena: sintonia e dispositivos de marcação para improvisos

O roteiro da montagem tomou corpo: a apresentação começa fora do palco, para o qual cada intérprete criador vai se aproximando, com improvisos corporais e entoação de um vocalize. Já dentro do palco, os agentes cênicos se posicionam em um ponto fixo para formação de um semi círculo. Neste momento os músicos estão fora da cena.

Também faremos uma roda ainda vocalizando,  dinâmica que o grupo achou importante para criar uma sintonia corporal.  A roda, o círculo, parece ser uma formação que traz unidade e possibilita troca de olhares, o reconhecimento de que estamos dançando juntas. É quando colocamos nossa energia corporal à disposição do grupo.
ATS: improviso coletivo com uso de códigos

Depois da declamação de trechos de escritos de João Guimarães Rosa sobre o sertão, entramos em uma nova cena, quando faremos um jogo corporal baseado em improvisos individuais e marcação coletiva com o mesmo movimento circular e ondulatório dos da pélvis. Na matriz pélvica, estes movimentos correspondem ao oito para baixo e o oito maya, combinados a braços lateralizados, fazendo movimentos discretos. A Bianca chamou este momento de "taqsim". Taqsim é um termo da Dança do Ventre para designar um momento de improviso, no qual a dançarina acompanha com o corpo algum instrumento melódico como flauta, acordeon ou violino. Em geral, é uma dança instrospectiva, mais lenta e sinuosa. No ATS o taqsim tem o formato mais fechado, é uma movimentação pré-definida de braços e quadril, já que é usado no improviso coletivo.

Sugeri este jogo corporal com o grupo posicionado em semi círculo. Ao som do pífano, com o músico em cena, cada dançarina sola enquanto as outras ficam paradas, até um sinal musical fazer com que ela "passe a bola" do movimento para outra dançarina, que inicia seu solo enquanto as outras aguardam paradas até que essa "onda de improvisos individuais" chegue a cada uma. Depois do solo, a dançarina acompanha quem está à sua esquerda, entrando no taqsim. Este jogo continua até se tornar mais rápido e acabar com uma interrupção brusca de uma batida de pandeiro.

Nesta cena pude observar mais uma vez a necessidade que o grupo sente em criar uma sintonia corporal com movimentos marcados, realizados coletivamente. Durante as experimentações para a cena, a Shabbana sugeriu que criássemos o que chamei de uma "matriz de movimento" (neste caso, o taqsim do ATS) para que todas seguissem um mesmo movimento. Com isso criamos um momento de dança conjunta e marcada.  A interação por meio de movimentos corporais sincronizados e iguais traz um sentido de coletividade que tem importância para o grupo, segundo as próprias dançarinas que falaram sobre isso nas nossas rodas de conversa.

O músico Diego interagiu bastante com o grupo neste encontro. Participou do aquecimento e da yoga, o que permite que ele também compartilhe dessa sensação de coletividade corporal. Ele sugeriu que a flauta atuasse como dispositivo de marcação, guiando o momento da troca entre solistas, se aproximou mais da cena e começou a pensar em como se posicionar cenicamente. Evocou a ideia do "fauno" tocando uma flauta com o poder de despertar o movimento das dançarinas. Falou sobre o figurino e caracterização que gostaria de elaborar, baseando-se na imagem do fauno.

A Rose quer tomar os rumos da próxima e cena fazer um "chamamento iorubá". Partiremos daqui na criação para o próximo encontro.

Na roda de conversa inicial, as dançarinas manifestaram a vontade de ter a percussão para acompanhar a nossa dança. Disseram que sente muita falta da percussão, por "ela chamar a dançarina", como ressaltou a Shabbana. A Bianca e a Nindie disseram que suas criações em dança são fortemente baseadas na música e que o trabalho com instrumentos em cena, sem uma estrutura musical já definida e com forte percussão, é uma novidade para elas. 

Coincidentemente, teremos no próximo encontro a chegada de um percussionista para as próximas cenas, que serão em um ritmo mais rápido, em que certamente usaremos as batidas de quadril.