O roteiro da montagem tomou corpo: a apresentação começa fora do palco, para o qual cada intérprete criador vai se aproximando, com improvisos corporais e entoação de um vocalize. Já dentro do palco, os agentes cênicos se posicionam em um ponto fixo para formação de um semi círculo. Neste momento os músicos estão fora da cena.
Também faremos uma roda ainda vocalizando, dinâmica que o grupo achou importante para criar uma sintonia corporal. A roda, o círculo, parece ser uma formação que traz unidade e possibilita troca de olhares, o reconhecimento de que estamos dançando juntas. É quando colocamos nossa energia corporal à disposição do grupo.
ATS: improviso coletivo com uso de códigos
Depois da declamação de trechos de escritos de João Guimarães Rosa sobre o sertão, entramos em uma nova cena, quando faremos um jogo corporal baseado em improvisos individuais e marcação coletiva com o mesmo movimento circular e ondulatório dos da pélvis. Na matriz pélvica, estes movimentos correspondem ao oito para baixo e o oito maya, combinados a braços lateralizados, fazendo movimentos discretos. A Bianca chamou este momento de "taqsim". Taqsim é um termo da Dança do Ventre para designar um momento de improviso, no qual a dançarina acompanha com o corpo algum instrumento melódico como flauta, acordeon ou violino. Em geral, é uma dança instrospectiva, mais lenta e sinuosa. No ATS o taqsim tem o formato mais fechado, é uma movimentação pré-definida de braços e quadril, já que é usado no improviso coletivo.
Sugeri este jogo corporal com o grupo posicionado em semi círculo. Ao som do pífano, com o músico em cena, cada dançarina sola enquanto as outras ficam paradas, até um sinal musical fazer com que ela "passe a bola" do movimento para outra dançarina, que inicia seu solo enquanto as outras aguardam paradas até que essa "onda de improvisos individuais" chegue a cada uma. Depois do solo, a dançarina acompanha quem está à sua esquerda, entrando no taqsim. Este jogo continua até se tornar mais rápido e acabar com uma interrupção brusca de uma batida de pandeiro.
Nesta cena pude observar mais uma vez a necessidade que o grupo sente em criar uma sintonia corporal com movimentos marcados, realizados coletivamente. Durante as experimentações para a cena, a Shabbana sugeriu que criássemos o que chamei de uma "matriz de movimento" (neste caso, o taqsim do ATS) para que todas seguissem um mesmo movimento. Com isso criamos um momento de dança conjunta e marcada. A interação por meio de movimentos corporais sincronizados e iguais traz um sentido de coletividade que tem importância para o grupo, segundo as próprias dançarinas que falaram sobre isso nas nossas rodas de conversa.
O músico Diego interagiu bastante com o grupo neste encontro. Participou do aquecimento e da yoga, o que permite que ele também compartilhe dessa sensação de coletividade corporal. Ele sugeriu que a flauta atuasse como dispositivo de marcação, guiando o momento da troca entre solistas, se aproximou mais da cena e começou a pensar em como se posicionar cenicamente. Evocou a ideia do "fauno" tocando uma flauta com o poder de despertar o movimento das dançarinas. Falou sobre o figurino e caracterização que gostaria de elaborar, baseando-se na imagem do fauno.
A Rose quer tomar os rumos da próxima e cena fazer um "chamamento iorubá". Partiremos daqui na criação para o próximo encontro.
Na roda de conversa inicial, as dançarinas manifestaram a vontade de ter a percussão para acompanhar a nossa dança. Disseram que sente muita falta da percussão, por "ela chamar a dançarina", como ressaltou a Shabbana. A Bianca e a Nindie disseram que suas criações em dança são fortemente baseadas na música e que o trabalho com instrumentos em cena, sem uma estrutura musical já definida e com forte percussão, é uma novidade para elas.
Coincidentemente, teremos no próximo encontro a chegada de um percussionista para as próximas cenas, que serão em um ritmo mais rápido, em que certamente usaremos as batidas de quadril.

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