quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sobre a dramaturgia da dança: processos, caminhos e chegadas

Participar e ao mesmo tempo observar um processo criativo em dança desafia a percepção. No desenrolar deste Laboratório, às vezes sou conduzida pelas sensações da prática corporal, do devaneio da criação, e me perco do olhar de pesquisa. Outras vezes, quando preciso mergulhar na cena, algo me chama a atenção para uma perspectiva reflexiva, analítica, e lá estou eu, cabeça sem corpo, racionalizando o que deveria sentir.

No último encontro foram tantas experiências que me senti assim: conduzida quando poderia conduzir, e à deriva quando poderia seguir no fluxo da experiência. Demorei dois dias para processar tudo, e por enquanto o que tenho são essas anotações em tópicos. Minha grande pergunta, ao olhar para o que construímos até aqui: como a dramaturgia da dança se manifesta?

A meta de fechar uma montagem até o dia 08 de novembro teve um impacto contraditório em nosso processo criativo. Por um lado, a restrição temporal nos traz foco, direcionamento para encaminhar as experimentações a um resultado, à finalização das cenas. Por outro lado, a necessidade de finalizar a montagem acelera nossos processos, nossas trocas e vivências. O tempo atropela o processo criativo, que tem seus próprios e, por vezes, indecifráveis caminhos. A construção da coletividade do grupo requer fluidez e jogo, mas temos que escolher entre deixar fluir a criatividade, praticar o jogo, ou organizar as cenas, as marcações corporais e o diálogo com a música. 

Construção coletiva da cena: mundos que se cruzam, imaginários em diálogo. (Foto: Mallika)

  • Filmamos e fotografamos o encontro. Este material nos mostrou facetas da montagem que ainda não tínhamos observado. Suas formas, formações corporais. Percebi ritmos novos e alguns descompassos entre o meu corpo e a música. Vejo com naturalidade a nossa dificuldade de orientar os movimentos corporais a partir de vocalizes nossos e de música orgânica, autoral. Optamos por sair da área de conforto ao não usar músicas "de dança oriental". A ausência do derbak desorienta as dançarinas em um grau que varia de acordo com a bagagem de cada uma em explorar a dança por outros caminhos que não os da música.
Nosso campo musical: escaleta, cajon e bongó. (Foto: Mallika)

  • Senti que a música como camada criativa perdeu fôlego neste encontro. Os musicistas ainda estão isolados da cena, e em apenas um momento da montagem conseguimos aproximar  o Diego do palco. A riqueza de dançar com a música tocada ao vivo poderia estar sendo explorada em uma outra dimensão, com mais proximidade. Suponho que para os músicos também está sendo um desafio grande compor à medida que construímos as cenas. Nos primeiros encontros tivemos tempo de discutir o campo imaginal que trazemos para os movimentos corporais, as escolhas dos nossos personagens e como eles se comportam diante da dinâmica de cada movimento. Já neste final, a corporeidade se impôs sobre a musicalidade pois as decisões rítmicas e melódicas partem da cena para os músicos, e não ao contrário.
Cleópatra, nossa mascote, assistiu a tudo. (Foto: Mallika)


  • Ainda não tenho respostas sobre o que nos conduz com mais força na escolha dos movimentos corporais, seja nas marcações ou nos improvisos. Será a música? Os movimentos da matriz pélvica que chegam com mais naturalidade, de acordo com a melodia ou ritmo trazido pelos músicos? Até que ponto as personagens que cada uma escolheu realmente se manifestam no processo criativo? Ou haveria uma persona , um estilo que cada uma constitui no espaço da dança, que determina nossos processos de criação coreográfica?
A cena Tribal -Orixá: a força da matriz afro. (Foto: Mallika)

  •  A cena Tribal Brasil, que eu gosto de chamar de Tribal -Orixá, ganhou força e complexidade. Marcações mais bem definidas e movimentos sincronizados. Saímos do improviso e jogo cênico para a formação mais tradicional, próxima ao ATS e ao ITS. Demoramos para desconstruir esta cena, para que o próximo momento viesse. Uma cena forte, que mobiliza nossas sensações, parece nos envolver de tal forma que sair dela é um processo que querer um certo tempo.
Transição: saindo do Tribal Axé para o Dark Fusion Expressionista

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Processos de finalização da montagem



No ponto em que chegamos no Laboratório é possível notar  o fortalecimento do grupo na criação de sua coletividade. As rodas de conversa se tornaram momentos de tomada de decisão e  em muitas vezes as atividades desenvolvidas têm a liderança partilhada. Além disso os jogos corporais estão mais fluidos, o que permite a montagem coreográfica coletiva, com a definição de marcações corporais que se intercalam aos momentos de improviso. 

A imagem da roda é muito evocada durante os encontros, desde os exercícios corporais até os momentos de conversa. No roteiro da nossa montagem, nosso primeiro encontro em cena acontece em uma roda, na qual giramos e cantamos, antes de parar em semi-círculo. A roda é o elemento central das Danças Circulares Sagradas, sistematizadas no Ocidente pelo coreógrafo alemão/polonês Bernhard Wosien.

Conseguimos chegar a dez cenas, e no próximo encontro a montagem será fechada, para entrarmos no processo de sintonia fina de cada cena. As dançarinas ressaltaram que o derbak é um instrumento fundamental para que elas possam improvisar e por isso sentem falta dele, que funciona como guia dos movimentos dos quadris. Por enquanto, estamos usando pife, pandeiro e  escaleta, acrescido hoje de bongó e o violino. Acrescentamos também uma formação coreográfica de Tribal Brasil.

A ideia de trazer objetos de cena ou instrumentos de dança como leque, espada e punhal perdeu força. Algumas dançarinas disseram que não tinham conseguido inseri-los na montagem por não encaixarem na temática do sertão, proposta como cenário para o desenrolar nas cenas. Chegamos a considerar que um leque de penas poderia evocar um pássaro, que nos levou à ideia de carcará ou ave de rapina. Meu processo criativo neste Laboratório inclui a criação de um personagem para a minha dança ligado à imagem de um pássaro para a qual devo criar um figurino. 

Aliás, o tema figurino foi debatido entre nós. A Bianca lembrou que os figurinos de ATS são bem pesados, e o turbante na cabeça limitaria os movimentos mais soltos do Fusion. Concordamos em fechar o figurino na semana que vem, levando em conta a mobilidade e total liberdade de movimento.

A Nindie sugeriu colocar um momento de Gipsy Fusion, e o violino e escaleta nos deram uma cena que chamamos de Fusion, mas que ganha um traço de música eletrônica com o efeito vocal que o Diego faz na escaleta, lembrando os sons de mixagem de uma pick-up de DJ. Como usaremos estes elementos finais é algo que vamos definir no próximo encontro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Jogos corporais para a cena: sintonia e dispositivos de marcação para improvisos

O roteiro da montagem tomou corpo: a apresentação começa fora do palco, para o qual cada intérprete criador vai se aproximando, com improvisos corporais e entoação de um vocalize. Já dentro do palco, os agentes cênicos se posicionam em um ponto fixo para formação de um semi círculo. Neste momento os músicos estão fora da cena.

Também faremos uma roda ainda vocalizando,  dinâmica que o grupo achou importante para criar uma sintonia corporal.  A roda, o círculo, parece ser uma formação que traz unidade e possibilita troca de olhares, o reconhecimento de que estamos dançando juntas. É quando colocamos nossa energia corporal à disposição do grupo.
ATS: improviso coletivo com uso de códigos

Depois da declamação de trechos de escritos de João Guimarães Rosa sobre o sertão, entramos em uma nova cena, quando faremos um jogo corporal baseado em improvisos individuais e marcação coletiva com o mesmo movimento circular e ondulatório dos da pélvis. Na matriz pélvica, estes movimentos correspondem ao oito para baixo e o oito maya, combinados a braços lateralizados, fazendo movimentos discretos. A Bianca chamou este momento de "taqsim". Taqsim é um termo da Dança do Ventre para designar um momento de improviso, no qual a dançarina acompanha com o corpo algum instrumento melódico como flauta, acordeon ou violino. Em geral, é uma dança instrospectiva, mais lenta e sinuosa. No ATS o taqsim tem o formato mais fechado, é uma movimentação pré-definida de braços e quadril, já que é usado no improviso coletivo.

Sugeri este jogo corporal com o grupo posicionado em semi círculo. Ao som do pífano, com o músico em cena, cada dançarina sola enquanto as outras ficam paradas, até um sinal musical fazer com que ela "passe a bola" do movimento para outra dançarina, que inicia seu solo enquanto as outras aguardam paradas até que essa "onda de improvisos individuais" chegue a cada uma. Depois do solo, a dançarina acompanha quem está à sua esquerda, entrando no taqsim. Este jogo continua até se tornar mais rápido e acabar com uma interrupção brusca de uma batida de pandeiro.

Nesta cena pude observar mais uma vez a necessidade que o grupo sente em criar uma sintonia corporal com movimentos marcados, realizados coletivamente. Durante as experimentações para a cena, a Shabbana sugeriu que criássemos o que chamei de uma "matriz de movimento" (neste caso, o taqsim do ATS) para que todas seguissem um mesmo movimento. Com isso criamos um momento de dança conjunta e marcada.  A interação por meio de movimentos corporais sincronizados e iguais traz um sentido de coletividade que tem importância para o grupo, segundo as próprias dançarinas que falaram sobre isso nas nossas rodas de conversa.

O músico Diego interagiu bastante com o grupo neste encontro. Participou do aquecimento e da yoga, o que permite que ele também compartilhe dessa sensação de coletividade corporal. Ele sugeriu que a flauta atuasse como dispositivo de marcação, guiando o momento da troca entre solistas, se aproximou mais da cena e começou a pensar em como se posicionar cenicamente. Evocou a ideia do "fauno" tocando uma flauta com o poder de despertar o movimento das dançarinas. Falou sobre o figurino e caracterização que gostaria de elaborar, baseando-se na imagem do fauno.

A Rose quer tomar os rumos da próxima e cena fazer um "chamamento iorubá". Partiremos daqui na criação para o próximo encontro.

Na roda de conversa inicial, as dançarinas manifestaram a vontade de ter a percussão para acompanhar a nossa dança. Disseram que sente muita falta da percussão, por "ela chamar a dançarina", como ressaltou a Shabbana. A Bianca e a Nindie disseram que suas criações em dança são fortemente baseadas na música e que o trabalho com instrumentos em cena, sem uma estrutura musical já definida e com forte percussão, é uma novidade para elas. 

Coincidentemente, teremos no próximo encontro a chegada de um percussionista para as próximas cenas, que serão em um ritmo mais rápido, em que certamente usaremos as batidas de quadril. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Elementos criativos e definição da montagem

Na entrada no Núcleo de Dança

No encontro desta terça 04 de outubro avançamos na estrutura cênica da montagem que está sendo criada durante  o Laboratório.

A música se estabeleceu como camada criativa de base, é ela que cria a ambiência para o trabalho corporal, e que desperta o nosso corpo para os movimentos ondulatórios ou de batida dos quadris. Por enquanto estamos usando uma flauta e escaleta (Diego) e os snudjs (dançarinas), além de vocalize.

Começamos a criar um roteiro para a encenação/dança. Definimos que o vocalize abre os trabalhos, e depois seguiremos com improvisos e formações em ATS e ITS.

As personagens começaram a aparecer. Eu sugeri que a temática do sertão seja o cenário para a montagem. Assim cada participante fica livre para trazer as referências que quiser.

Bianca definiu sua personagem como uma feiticeira curandeira e solitária, uma nômade.
Rose evocou um Orixá híbrido.
Shabbana trouxe como referência os punhais e  pode se tornar uma cangaceira.
Eu que estava apegada à água, acabei me tornando um pássaro. Pensei em uma mulher que vive seis meses como humana e outros seis como pássaro.
A Nindie ainda está pensando no que será.

A proposta é que as personagens nos ajudem a estabelecer linhas cênicas de interação, mas isso ainda não está refletido na nossa linguagem corporal.

Conseguimos criar quatro cenas para a montagem, e no próximo encontro vamos afinar essa estrutura e colocar solos entre elas.

A primeira cena é com o vocalize, a segunda é um improviso com movimentos ondulatórios, música mais branda com uso de flauta. Eu apresentei um pequeno trecho do livro dos irmãos Villas Bôas para declamar. E por fim, fizemos uma formação em ITS com ritmo mais forte e cadenciado.