No último encontro foram tantas experiências que me senti assim: conduzida quando poderia conduzir, e à deriva quando poderia seguir no fluxo da experiência. Demorei dois dias para processar tudo, e por enquanto o que tenho são essas anotações em tópicos. Minha grande pergunta, ao olhar para o que construímos até aqui: como a dramaturgia da dança se manifesta?
A meta de fechar uma montagem até o dia 08 de novembro teve um impacto contraditório em nosso processo criativo. Por um lado, a restrição temporal nos traz foco, direcionamento para encaminhar as experimentações a um resultado, à finalização das cenas. Por outro lado, a necessidade de finalizar a montagem acelera nossos processos, nossas trocas e vivências. O tempo atropela o processo criativo, que tem seus próprios e, por vezes, indecifráveis caminhos. A construção da coletividade do grupo requer fluidez e jogo, mas temos que escolher entre deixar fluir a criatividade, praticar o jogo, ou organizar as cenas, as marcações corporais e o diálogo com a música.
Construção coletiva da cena: mundos que se cruzam, imaginários em diálogo. (Foto: Mallika)
- Filmamos e fotografamos o encontro. Este material nos mostrou facetas da montagem que ainda não tínhamos observado. Suas formas, formações corporais. Percebi ritmos novos e alguns descompassos entre o meu corpo e a música. Vejo com naturalidade a nossa dificuldade de orientar os movimentos corporais a partir de vocalizes nossos e de música orgânica, autoral. Optamos por sair da área de conforto ao não usar músicas "de dança oriental". A ausência do derbak desorienta as dançarinas em um grau que varia de acordo com a bagagem de cada uma em explorar a dança por outros caminhos que não os da música.
Nosso campo musical: escaleta, cajon e bongó. (Foto: Mallika)
- Senti que a música como camada criativa perdeu fôlego neste encontro. Os musicistas ainda estão isolados da cena, e em apenas um momento da montagem conseguimos aproximar o Diego do palco. A riqueza de dançar com a música tocada ao vivo poderia estar sendo explorada em uma outra dimensão, com mais proximidade. Suponho que para os músicos também está sendo um desafio grande compor à medida que construímos as cenas. Nos primeiros encontros tivemos tempo de discutir o campo imaginal que trazemos para os movimentos corporais, as escolhas dos nossos personagens e como eles se comportam diante da dinâmica de cada movimento. Já neste final, a corporeidade se impôs sobre a musicalidade pois as decisões rítmicas e melódicas partem da cena para os músicos, e não ao contrário.
Cleópatra, nossa mascote, assistiu a tudo. (Foto: Mallika)
- Ainda não tenho respostas sobre o que nos conduz com mais força na escolha dos movimentos corporais, seja nas marcações ou nos improvisos. Será a música? Os movimentos da matriz pélvica que chegam com mais naturalidade, de acordo com a melodia ou ritmo trazido pelos músicos? Até que ponto as personagens que cada uma escolheu realmente se manifestam no processo criativo? Ou haveria uma persona , um estilo que cada uma constitui no espaço da dança, que determina nossos processos de criação coreográfica?
A cena Tribal -Orixá: a força da matriz afro. (Foto: Mallika)
- A cena Tribal Brasil, que eu gosto de chamar de Tribal -Orixá, ganhou força e complexidade. Marcações mais bem definidas e movimentos sincronizados. Saímos do improviso e jogo cênico para a formação mais tradicional, próxima ao ATS e ao ITS. Demoramos para desconstruir esta cena, para que o próximo momento viesse. Uma cena forte, que mobiliza nossas sensações, parece nos envolver de tal forma que sair dela é um processo que querer um certo tempo.
Transição: saindo do Tribal Axé para o Dark Fusion Expressionista

